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A história da Salvação está repleta de sinais que nos apresentam com clareza o “risco” que se corre quando o Evangelho é vivido autenticamente e com profetismo. Aquele que o assume como verdade entende que fazer a vontade de Deus é antes ser obediente aos seus desígnios e abandonar-se inteiramente a Ele. É o que nos mostra, por exemplo, João Batista com sua vida e, especialmente, com o seu martírio, recordado pela Igreja em 29 de agosto.

Obediência é o primeiro aspecto destacado na vida deste homem. João Batista cumpriu com destemor sua missão de “profeta do Altíssimo”, precedendo o Senhor e preparando-lhe o caminho (cf. Lc 1, 76). Por assim ter feito, pode ser identificado como o último dos profetas da antiga aliança, a “voz que clama no deserto” aos corações endurecidos antecedendo a revelação do Messias. É ele o “Elias” que haveria de retornar para anunciar a chegada do Salvador (cf. Ml 3, 23; Mt 17,12-13). É nesta perspectiva que pode ser visto também como o “maior dos profetas”, testemunho este que o próprio Jesus deu a seu favor ao afirmar que “entre os que nasceram de mulher, não surgiu ninguém maior que João, o Batista” (cf. Mt 11,11).

Ao assumir sua vocação profética, João esteve sujeito aos perigos deste mundo, à perseguição, ao escárnio, à humilhação; perigos estes que o levaram à prisão e ao martírio por causa da verdade que intrigava os corações mais fechados. Ele viveu este chamado numa entrega total a vontade de Deus. (cf. Mt, 3,12; Lc 3,1-22; Mc 1,1-8). Sabia bem qual era seu papel naquele momento ao declarar: “(…) Depois de mim vem outro mais poderoso do que eu, ante o qual não sou digno de me prostrar para desatar-lhe a correia do calçado” (Mc 1,7).

No deserto chamava o povo a penitência, a voltar para o Senhor, reconciliando-se com Ele. É neste percurso que realizou o anúncio mais significativo de sua vida ao ter indicado aos seus seguidores:“Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” (Jo 1, 29b), referindo-se a Nosso Senhor Jesus Cristo.

O segundo aspecto a ser destacado é o abandono em Deus. Esta foi outra grande característica em João Batista. Abandonou-se por inteiro, sem reserva para obedecer aos desígnios do Senhor.

Sabe-se que o status de seu pai, Zacarias, sacerdote do Templo de Jerusalém, conferiria a João Batista a herança também de ser ele sacerdote e oferecer os sacrifícios pelo povo; mas, mesmo a isto ele deixou. Abandonou suas obrigações, sua tradição, seus bens e tanto mais para dedicar-se inteiramente ao chamado de pregar o batismo de conversão.

Este abandono tratava-se de uma confiança infinita na providência e manifestação da graça de Deus em seu favor, como o fora em favor de tantos outros profetas em Israel. O ápice desta atitude de despojamento à graça divina com certeza foi o próprio martírio.

Segundo Marcos, “o próprio Herodes mandara prender João e acorrentá-lo no cárcere, por causa de Herodíades, mulher de seu irmão Felipe, com a qual ele se tinha casado. João tinha dito a Herodes: Não te é permitido ter a mulher de teu irmão” (Mc 6,17-18). Preso injustamente, mesmo com a admiração de Herodes, foi decapitado. A soberba de Herodíades, em não aceitar a denúncia de João sobre sua união ilegítima com o rei, e também a covardia Herodes, apresentam o cenário do martírio de João.

“Dá-me aqui, neste prato, a cabeça de João Batista”, (Mt 14, 8) pede a filha de Herodíades ao rei. De acordo com Mateus, “o rei entristeceu-se, mas, como havia jurado diante dos convidados, ordenou que lha dessem; e mandou decapitar João na prisão” (Mt 14, 9-10). O Batista entrega sua vida nas mãos daqueles que lhe fecharam o coração e decidiram não acolher seu apelo à conversão.

A obediência e o abandono de João Batista servem a nós cristãos destes tempos como um grande sinal. O quanto estamos dispostos a viver os valores do Evangelho em uma total atenção aos ensinamentos de Cristo? Quantos de nós estamos disponíveis a assumir os riscos para isso ou mesmo perder prestígios, fama, bens, posições, influência para defender e anunciar a verdade? Estaríamos nós dispostos a dedicar nossa vida inteira nos abandonando à graça de Deus e a sua vontade? São algumas interrogações que a vida e o martírio de João levam a fazer.

Enquanto seguidores de Cristo nós também somos neste mundo “precursores”. Hoje é a voz do cada cristão que clama no deserto, e muitos não só clamam, mas bradam com a própria vida, na investida pela conversão das pessoas a Jesus Cristo. Em cada um a força do Espírito Santo se manifesta para que também o testemunho dos cristãos hoje seja tão profético quanto de João, anunciando a verdade e denunciando as injustiças e o pecado atrelado em nossas estruturas e no coração dos homens.

Mas não nos iludamos, “o servo não é maior que seu senhor” (Jo 15, 20), também nós seremos “mártires”, talvez não como João Batista, e certamente muitos não o serão da mesma forma que ele. Mas, o seremos diante das injustiças, perseguições, intolerâncias e investidas contra nós nestes tempos. Os dias de hoje nos exigem uma autêntica vivência das virtudes evangélicas, a defesa da fé e dos valores ensinados por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Somos os “profetas do Altíssimo” diante de um mundo muitas vezes incrédulo e de pessoas de corações endurecidos. É a estes que o Senhor nos envia para preparar sua vinda gloriosa e o Reino definitivo. Mártir, sobretudo, significa “testemunha”. O martírio de nosso tempo muito mais que “perder a cabeça” ou derramar seu sangue, como vem acontecendo já em muitos lugares, é também resistir aos ataques do mundo contra nós. Confiantes na Sua graça, sejamos obedientes a Deus e nos abandonemos inteiramente a Ele, para assim testemunhar sua presença com a nossa própria vida.

Jefferson Souza

Coordenador do Grupo de Oração Ágape

Diocese de Macapá (Amapá)